Da gaveta do meu computador. Um textinho bem levinho. (Só faltou dizer que as festas foram excelentes: temáticas, coloridas e politizadas - quer mais?)
Enecom não diz o que fazer, mas mostra que, sim, é necessário que se faça alguma coisa.
O Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação é um espaço de formação política e acadêmica, articulação política, sensibilização para as lutas sociais e, claro, confraternização (500 estudantes de todo o Brasil reunidos, queria o quê?). E desde pelo menos dois anos atrás é um espaço em que a Fabico não comparece. E o Enecom é um espaço que vale a pena. E falo do alto da experiência de alguém que já participou de 2 Enecons (uiuiui).
O Enecom 2009, intitulado “Sociedade em desconstrução: faça da sua indignação a sua comunicação”, ocorreu em Fortaleza no final de julho. O encontro contou com pelo menos uma inovação em relação ao anterior: o sistema de brigadas. Quem conhece o MST sabe que o movimento se organiza em brigadas ou núcleos de base (NBs). Nesse sistema, cada brigada é responsável por uma tarefa. No nosso caso, as brigadas eram por cor (azul, amarela, verde e branca, etc.) e em cada dia tinham uma tarefa (p. ex.: chamar as pessoas para os painéis, “limpar o terreno” depois da festa, lavar a louça, acordar as pessoas de manhã – essa era a mais divertida). As brigadas também se reuniam após cada palestra, debatiam entre si e tiravam representantes para levar à plenária o que haviam discutido. Era uma tentativa de fazer com que as pessoas se sentissem mais à vontade para falar. Como tímida de plantão, tenho autoridade para dizer que a iniciativa foi exitosa.
Gilmar Mauro (líder do MST) abriu a primeira mesa falando, dentre outras coisas, sobre a crise ecológica, energética, alimentar e econômica e a importância da organização política. Sua fala foi precedida por uma mística elaborada pela Comissão Organizadora e por um breve histórico de lutas da Enecos (“nossa menina” estava completando 18 aninhos na ocasião). A mística visava provocar o encontrista a relacionar as marcas que consome (MC Donald’s, Volkswagen, etc.) à exploração da classe trabalhadora e à exclusão social. Foi de arrepiar.
No outro dia aconteceu o Núcleo de Vivência, quando a criatura podia escolher se ia prum assentamento do MST, uma ocupação e mais um zilhão de coisas. Resolvi, de curiosa, ir ver o MCP (Movimento dos Conselhos Populares), do qual nunca tinha ouvido falar (provavelmente porque ele só existe em Fortaleza). Trata-se de mais um caso de despejo de uma população em benefício da especulação imobiliára (qualquer semelhança com o que ocorre aqui não é mera coincidência).
Na mesa de Comunicação e cultura popular, uma antropóloga e – porque não dizer – militante carioca (cujo nome não lembro, não anotei e nem achei por aí :p) falou sobre a criminalização do funk nas favelas do Rio de Janeiro. Sim, criminalização. A realização dos bailes funk está condicionada a uma autorização e ao cumprimento de normas impraticáveis, regulamentadas pela Lei Álvaro Lins. Em reação a Lei a APAFUNK (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk) resolveu fazer rodas de funk (como as de samba). Não funcionou. A partir de então a lei passou a considerar que duas pessoas dançando já caracterizariam baile funk. Para fulana, trata-se de uma política pública equivocada, já que o funk proibidão (no qual ocorrem violências) é apenas um microcosmo do funk. O olhar da mídia, observa, além de criminalizante é autoritário, pois “identifica uma população a partir de uma carência e não a partir do que existe”. Elas são as populações miseráveis, marginalizadas, sem saneamento básico, sem escola, sem terra.
Na mesa de educação Ivan Lessa, professor de filosofia (que tem um livro muito bom e muito didático chamado “Introdução à filosofia marxista”, da Ed. Expressão Popular), falou da educação como um todo. Vinícius, estudantes da UFS e membro da Enecos, por sua vez, fez o gancho com a comunicação. O universal se particulariza. O todo está na parte; a parte está no todo. Vinícius rebateu a afirmação de que os cursos de Comunicação seriam exclusivamente técnicos, para ele ”aprendemos a teoria crítica e reproduzimos a técnica conservadora”. Apontou a necessidade de se lutar por cadeiras como Comunicação Comunitária, Comunicação e Educação, Comunicação e Movimentos Sociais. Indicou também as debilidades da aplicação do tripé ensino, pesquisa e extensão: “O ensino é universal, a pesquisa e a extensão, não”. (Claro que todas essas palestras foram entremeadas por conversas com pessoas de Fortaleza, Aracaju, interior da Bahia, João Pessoa, São Luís do Maranhão, Teresina, São Paulo, Florianópolis, Cuiabá, Natal… Como diz a minha amiga e companheira de viagens malucas pelo Brasil, “o Brasil é grande”. E eu diria mais: o Brasil é muito grande. E os problemas são (muito) parecidos.)
E uma manifestação de rua pela realização da I Confecom e contra a criminalização dos movimentos sóciais. (Alguns se manifestaram contra o fim da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista, quebrando um acordo firmado no Cobrecos.)
Plenária final: Cobrecos (Congresso Brasileiro dos Estudantes de Comunicação) em SP, inscrições de chapas para gestão, renúncia de um membro da executiva da regional Sul (por conta de reverberações da manifestação, história para outro post)…
E a conclusão? O Enecom não é um oráculo que nos fornece respostas (apesar de, no final de todas as palestras, um desavisado fazer “aquela” pergunta: “ta, mas e aí, que fazer?”). O Enecom é um lugar de idéias. De cliques. De maconha e putaria, sim. E, sobretudo, uma utopia: o lugar em que um contingente de lutadores de diversos lugares do país troca experiências. Claro que tem muita gente que vai pra “turistar”, mas aí é outra história (a história de quem reclama dos políticos e faz uso de dinheiro público para conhecer o Brasil).