História de Rodoviária

September 21, 2007

Discretas, coloridas, cor-de-rosa: há bolsas e malas para todos os gostos. Por causa do capitalismo, hoje temos a chance de escolher entre modelitos, os mais variados (não que uma mala cor-de-rosa difira muito de uma marrom em sua essência, mas é preciso reconhecer que temos essa "liberdade de escolha"). Os seres que carregam/arrastam essas bolsas ou malas também diferem bastante em sua aparência, contudo, como as malas, não têm essências lá muito diversas (vejam bem, aqui não estou falando dos desodorantes, colônias, deocolônias que usam).

Em meio à multidão de malas e gentes, estou eu, em pé (as cadeiras estão todas ocupadas) pensando em qualquer coisa. De repente, do nada, tenho um estalo.

Minha bolsa de viagem preta&discreta está no chão, entre minhas pernas, e tenho apenas uma das alças da mochila pedurada num dos braços. Tenho fome. Há uma bergamota dentro da mochila (sim, sou uma moça precavida), todavia, como não avisto nenhum lixo por perto onde possa jogar as cascas e sementes, não a como. Enquanto isso, dá-se o vai-e-vem de pessoas e malas. Uma senhora tem de se afastar dali para conseguir falar ao celular. Olho para o chão, vejo farelos de sagadinhos. Penso que, se eu fosse o Gay Talese (ou o Truman Capote), trataria de descobrir quantos pacotes dessas porcarias são vendidos ali por dia. Ah, e obviamente, qual é o salgadinho preferido de cada tipo de viajante. Mas como não sou Talese, nem Capote, posso afirmar apenas que aqueles farelos pareciam ser de pastelina (ótima escolha, por sinal). Eis que, como se lesse meus pensamentos, uma funcionária uniformizada aparece com uma vassoura e uma pá. Pede licença. Eu digo "sim" e me afasto um pouco. Quando acaba  serviço, ato contínuo uma moça ocupa meu cantinho e tenho de procurar outro lugar para me abrigar enquanto o ônibus não vem (ainda falta meia hora). Felizmente, a multidão já se espalhara e tenho alumas opções. Paro então exatamente no ponto em que as pessoas querem passar. Tem uma moça ao meu lado, firme e forte, me ajudando a obstruir a passagem dos loucos das malas. Provavelmente ela está distraída, uma vez que folheia uma revista que tento a todo custo descobrir qual é, mas não consigo. Sem dar tempo de eu me frustrar por minha empreitada ter falhado, surge meu Semancol e convida, em tom jocoso: "Vamos desobstruir a passagem, Ana Lúcia?". Digo "sim, senhor Semancol" e me posiciono ao lado do box 40, onde um ônibus da Viação Santa Cruz deve chegar a qualquer momento.

Quero comer minha bergamota. Penso que só vou conseguir fazer aquilo dentro do ônibus. Imagino as pessoas reclamando do fedor provocado pela pseudofarofeira aqui. "Não é uma boa idéia", concluo.

Aquela região dos boxes em geral é dominada por pessoas muito ocupadas olhando para a pista de onde surgirá o ônibus em que embarcarão. Bento, Azul, Santa Cruz. "Êba", vibro. O ônibus passa reto. São dez pras oito e nada do meu bonde chegar. Fico preocupada. Esse estado dura somente o tempo de eu avistar uma lixeira. Feito! Pego a bergamota. Embora ela não estivesse muito doce, como-a com gosto.

Termino de comer e nada do ônibus. Já são cinco pras oito! Planejo perguntar ao motorista, assim que chegar, o que aconteceu e, desse modo, conseguir um final surpreendente para meu texto.

O relógio da rodoviária marca oito horas em ponto quando o Viação Santa Cruz chega. Entrego minha mala ao cobrador para que a coloque no porta-malas e adentro o veículo. Lembro-me da idéia besta de perguntar ao motorista o motivo do atraso. É óbvio que houvera um engarrafamento ocasionado pela véspera do feriadão. Penso em que papel escrever ("o texto de Política VIII ou o livro de inglês?"). Outra idéia besta: ainda que não vá dormir, estou cansada demais para escrever qualquer coisa. Reclino a poltrona ao máximo rezando para que o passageiro a minha frente não faça o mesmo. Sim, tenho pernas compridas (eu e tio Nelson Jobim). Fecho os olhos pedindo ao papai do céu para não esquecer a história que acabara de vivenciar e criar simultaneamente. 

Caso perdido

September 16, 2007

Ana Lúcia diz: que achou do blog?
amigomau diz: gostei
amigomau diz: vc parece mais empolgada que no menina curiosa
amigomau diz: mas tá ficando com aquela linguagem tediosa de estudantes de jornalismo
amigomau diz: mto formal e pouco fluido
Ana Lúcia diz: =(
amigomau diz: o conteúdo tá ótimo
amigomau diz: adorei o post sobre o Renan
Ana Lúcia diz: linguagem tediosa.. dá licença que vou me atirar aqui do 1º andar…
amigomau diz: não faça isso!
amigomau diz: se atire do térreo
amigomau diz: e é mal da profissão
amigomau diz: já vi vários assim

Inveja de Renan

September 15, 2007

Renan é uma exceção. Este homem é a exceção entre os últimos paladinos da moral, o povo brasileiro. O povo brasileiro não faz gato, não anda a mais de 80 km/h, não passa no sinal vermelho (ou atravessa na rua quando o sinal está fechado para si), não compra produtos piratas, não fura a fila.  

Raiva? Indignação? Inveja. Esse é o nome do sentimento que os brasileiros têm por Renan. Sim, inveja. Porque têm de continuar com suas corrupções feijão-com-arroz enquanto o mestre apronta as suas corrupções mais filé-de-peixe-ao-molho-mostarda lá no senado. Sempre superando seus antecessores e a si próprio.

E não é só isso: Renan não é punido, já o ladrão de galinha…

Extra! Extra!

September 6, 2007

Extra! Extra! Uma em cada três pessoas possui um eme-pê-três-pleier. Depois da popularização dos celulares durante o governo de FHC, o Brasil dá mais um salto em direção ao Primeiro Mundo. E o índice mencionado no início do texto não se refere só às capitais, não! A tecnologia está chegando aos lugares mais recônditos do país, uma vez que em Taraquacirica da Serra, na Paraíba, o índice é o mesmo de Curitiba (ou seja, um eme-pê para três pessoas).

É, meu povo, mas a coisa não pode ser tão boa assim. Meu avô sempre dizia que tudo tem seus prós e contras, e com o eme-pê-três não ia ser diferente, né? Que o diga o halterofilista Robson de Almeida, que levou um tiro na cabeça por causa do bichinho (o eme-pê-três). O assaltante ordenou: “passa a grana”, Robson obviamente não ouviu e o meliante disparou a arma. Menos mal que o publicitário Nilson dos Anjos presenciara o crime – e milagrosamente não fora notado pelo assassino. Dos Anjos escondeu-se e, com seu telefone celular, ligou para a polícia, que respondeu prontamente a seu chamado. O criminoso foi preso em flagrante (perceba que a tecnologia também chegou à polícia na forma do tele-transporte). No final das contas, a mãe da vítima quis visitar o culpado na cadeia. Este último justificou-se à genitora. Ele não teria visto que a vítima portava fones de ouvido. Pediu desculpas, que foram imediatamente aceitas. Um jornalista da Globo foi entrevista-la após o encontro e, após a mãe ter relatado o episódio, o aspirante a William Bonner perguntou: “E por que a senhora aceitou as desculpas? A senhora não gostava do seu filho?”; ao que ela respondeu: “Olha, gostar eu até gostava, seu moço. Mas ele incomodava muito. Bebia. Cheirava. Dava muito sofrimento pra família, especialmente pros filhos (ele tinha criança pequena). Mas o senhor é moço fino e não entende essas coisas”.

Essa história foi triste, vamos agora a uma mais “alegrinha”. Tocava “Claus e Vanessa” no eme-pê-três de Margareth Talharini quando Dinaldo Nudeln teve ânsia de vômito. Como ela não viu o que estava para acontecer, continuou estática. Resultado: o vômito alcançou a calça Diesel novinha da moçoila e ela nunca mais comeu miojo. Eu disse que o causo era alegre? Ué, mas é! Ó céus! É duro lidar com gente que não capta a sutileza das coisas! A moça melhorou a alimentação! É pena que não tenha deixado de gastar com calças da Diesel, nem de ouvir “Klaus e Vanessa” (com “k”, ou “c”? De qualquer modo, ao menos em 50% dos casos acertei), mas também não dá pra pedir um milagre de um aparelhinho de 6 cm que custou no máximo R$ 150, né?

Moral da história nº 1: enquanto você está com os fones sua vida (ou morte, HA-HÁ) pode estar sendo decidida sem que você saiba. Moral da história nº 2: o eme-pê-três não só deixa as pessoas surdas, mas também cegas (e também pode deixar o indivíduo sem nenhum dos sentidos, como aconteceu com nosso amigo Robson, HA-HA).

Aviso importante

September 1, 2007

Meu teclado está desconfigurado. Por essa razão faltam crases e acentos circunflexos no post abaixo.

Acentos colocados! 

Prefácio pós-moderno

UMBIGO - Quando me inscrevi no vestibular para jornalismo (ou melhor, Comunicação Social - Hab. Jornalismo), nutria uma série de ilusões que renderiam um baita livro (a bem da verdade, acho que ainda não me desvincilhei de todas elas). Como acredito que ainda não tenha chegado o momento oportuno para escrever um livro, vou falar de apenas uma das minhas (ex-)ilusões: a de que a faculdade me estimularia a escrever textos geniais, isto é, ainda mais geniais do que os que eu escrevia na época (sim, eu admito que modéstia pouca era bobagem naquele período da minha vida).

SAINDO DAS IMEDIAÇÕES DO UMBIGO - Qualquer um sabe que cerca de 99% dos estudantes de jornalismo se enquadram em uma das seguintes categorias: músico frustrado (8%), "jornalismo é uma área ampla", ou, traduzindo, não-sabia-o-que-fazer-da-vida-e-não-gostava-de-matemática (12%) e escritor frustrado (79%). Nem preciso dizer que me enquadro na última categoria.

DE VOLTA AO UMBIGO - Na faculdade, depois de passar por um monte de cadeiras nada a ver com jornalismo e chegar nas cadeiras específicas (de jornalismo), nesse semestre matriculei-me para a cadeira de Laboratório de Textos, o que considero uma manifestação semi-consciente da minha vontade de lutar contra essa força oculta que confiscava minha criatividade me impedindo, assim, de escrever. E, pasmem, a ilusão do início do texto virou realidade. Pelo menos nessa cadeira encontro um estímulo para viajar na maionese (e o melhor: esquecendo os abomináveis Manuais de Redação e Estilo!).

Dito isso, que venha a inspiração (e a transpiração)! ( Até porque ainda estou devendo o texto da semana passada.)

P.S. O legal de blogar é que eu posso escrever um texto ególatra com algumas características típicas de texto jornalístico mandando os manuais de redação pro espaço.
P.S. (2) O irônico é que a professora de Laboratório de Textos é a mesma que nos ensinou a usar intertítulos e retrancas, e a fazer lides
P.S. (3) Mas o mais legal é que este texto deveria servir apenas para dizer o motivo da criação do blog (que poderia ser expresso numa só frase): tomei vergonha na cara (onde já se viu uma estudante de jornalismo não ter um blog para dar seus pitacos sobre o que quer que seja?!). no semestre passado.