História de Rodoviária
Discretas, coloridas, cor-de-rosa: há bolsas e malas para todos os gostos. Por causa do capitalismo, hoje temos a chance de escolher entre modelitos, os mais variados (não que uma mala cor-de-rosa difira muito de uma marrom em sua essência, mas é preciso reconhecer que temos essa "liberdade de escolha"). Os seres que carregam/arrastam essas bolsas ou malas também diferem bastante em sua aparência, contudo, como as malas, não têm essências lá muito diversas (vejam bem, aqui não estou falando dos desodorantes, colônias, deocolônias que usam).
Em meio à multidão de malas e gentes, estou eu, em pé (as cadeiras estão todas ocupadas) pensando em qualquer coisa. De repente, do nada, tenho um estalo.
Minha bolsa de viagem preta&discreta está no chão, entre minhas pernas, e tenho apenas uma das alças da mochila pedurada num dos braços. Tenho fome. Há uma bergamota dentro da mochila (sim, sou uma moça precavida), todavia, como não avisto nenhum lixo por perto onde possa jogar as cascas e sementes, não a como. Enquanto isso, dá-se o vai-e-vem de pessoas e malas. Uma senhora tem de se afastar dali para conseguir falar ao celular. Olho para o chão, vejo farelos de sagadinhos. Penso que, se eu fosse o Gay Talese (ou o Truman Capote), trataria de descobrir quantos pacotes dessas porcarias são vendidos ali por dia. Ah, e obviamente, qual é o salgadinho preferido de cada tipo de viajante. Mas como não sou Talese, nem Capote, posso afirmar apenas que aqueles farelos pareciam ser de pastelina (ótima escolha, por sinal). Eis que, como se lesse meus pensamentos, uma funcionária uniformizada aparece com uma vassoura e uma pá. Pede licença. Eu digo "sim" e me afasto um pouco. Quando acaba serviço, ato contínuo uma moça ocupa meu cantinho e tenho de procurar outro lugar para me abrigar enquanto o ônibus não vem (ainda falta meia hora). Felizmente, a multidão já se espalhara e tenho alumas opções. Paro então exatamente no ponto em que as pessoas querem passar. Tem uma moça ao meu lado, firme e forte, me ajudando a obstruir a passagem dos loucos das malas. Provavelmente ela está distraída, uma vez que folheia uma revista que tento a todo custo descobrir qual é, mas não consigo. Sem dar tempo de eu me frustrar por minha empreitada ter falhado, surge meu Semancol e convida, em tom jocoso: "Vamos desobstruir a passagem, Ana Lúcia?". Digo "sim, senhor Semancol" e me posiciono ao lado do box 40, onde um ônibus da Viação Santa Cruz deve chegar a qualquer momento.
Quero comer minha bergamota. Penso que só vou conseguir fazer aquilo dentro do ônibus. Imagino as pessoas reclamando do fedor provocado pela pseudofarofeira aqui. "Não é uma boa idéia", concluo.
Aquela região dos boxes em geral é dominada por pessoas muito ocupadas olhando para a pista de onde surgirá o ônibus em que embarcarão. Bento, Azul, Santa Cruz. "Êba", vibro. O ônibus passa reto. São dez pras oito e nada do meu bonde chegar. Fico preocupada. Esse estado dura somente o tempo de eu avistar uma lixeira. Feito! Pego a bergamota. Embora ela não estivesse muito doce, como-a com gosto.
Termino de comer e nada do ônibus. Já são cinco pras oito! Planejo perguntar ao motorista, assim que chegar, o que aconteceu e, desse modo, conseguir um final surpreendente para meu texto.
O relógio da rodoviária marca oito horas em ponto quando o Viação Santa Cruz chega. Entrego minha mala ao cobrador para que a coloque no porta-malas e adentro o veículo. Lembro-me da idéia besta de perguntar ao motorista o motivo do atraso. É óbvio que houvera um engarrafamento ocasionado pela véspera do feriadão. Penso em que papel escrever ("o texto de Política VIII ou o livro de inglês?"). Outra idéia besta: ainda que não vá dormir, estou cansada demais para escrever qualquer coisa. Reclino a poltrona ao máximo rezando para que o passageiro a minha frente não faça o mesmo. Sim, tenho pernas compridas (eu e tio Nelson Jobim). Fecho os olhos pedindo ao papai do céu para não esquecer a história que acabara de vivenciar e criar simultaneamente.
