Nem tão práticos, nem tão funcionais, nem recantos de elegância. Não, não estou falando dos shoppings populares, mas sim dos shopping centers "comuns", aqueles outrora freqüentados só por gente chique, ou gente que quer ser chique, bem. Estes, que pareciam ser os últimos redutos de segurança nas grandes cidades, estão sendo invadidos pela chamada “rafuagem”. E pelos assaltos também. Não que haja correlação entre as duas coisas. Acredito que estes sejam fenômenos demasiado recentes para merecerem um estudo sociológico sério (excetuando-se os de uma certa “sociologia instantânea”).
A “sociologia Nissin Miojo" de que falei tem uma metodologia própria que inclui, por vezes, a realização de entrevistas com fontes nem sempre confiáveis. A entrevistada no “estudo” que relatarei a seguir era uma arquiteta vinda dos confins de uma grande universidade de São Paulo. (Este estudo foi ao ar no dia 15 de outubro, no Jornal da Cultura, TVE, 22h). Pois bem, essa cidadã foi responsável pelo ponto alto da “pesquisa”. Este se deu quando o “sociólogo” relatou que já havia visto pessoas mais humildes sendo “gentilmente convidadas” a se retirar de um shopping center, o que considerava uma situação constrangedora. O sociólogo não falava necessariamente de ladrões, estelionatários, assassinos, mendigos, mas apenas de pessoas que estavam mais “mal-vestidas” que a fauna* local (a menos que a palavra "humilde" seja um eufemismo para pedinte). A entrevistada “respondeu” como se o moço tivesse se referido a pessoas que estivessem pedindo esmola. A doutora disse que shopping não é lugar de pedir esmolas, que para isso há igrejas, sinaleiras, e que, se os seguranças vêem “alguma coisa”, têm obrigação de “tentar evitar que ocorra o pior”. A fonte, na verdade, era uma cidadã de classe média incomodada que tentava, sem sucesso, esconder-se atrás da acadêmica.
Depois, a cidadã de classe média falava da existência de shoppings também para as classes C e D (!!). E que ela, num estudo, havia descoberto algo “muito interessante”: há um shopping em Campinas (SP) que tem áreas diferentes, cada uma com lojas de acordo para cada classe social. Ou seja, os cidadãos de classes diferentes podem sim conviver em harmonia (não recordo se foram exatamente essas palavras que a “tia” usou). Sim, minha gente, é só os mendigos não invadirem a área dos cidadãos de (Mercedez) Benz. Isso não é lindo? Tu, que acreditava que a redução da desigualdade social no Brasil era imperiosa, não mudou teus paradigmas? Olha o que tu vai responder! Se tu disser que não, vou ser obrigada a te chamar de conservador-direitista-positivista-reacionário! Pra quê distribuição de renda, tchê? Nóis é pobre mais é filiz. I agora nóis tamem podi i no xopim center, comê uns bixo estranho com um tar de gergelim e inda fazê um crediário nas Casas Bahia.
* Expressão usada pelo “tio” Joel Silveira na primorosa hãã reportagem? crônica? “1943: Eram assim os grã-finos em São Paulo”, que está no seu livro “Tempo de Contar”. Com o tempo - sem perceber, obviamente - me adonarei desta expressão bem como de outras. (Todo mundo sabe que nesse mundo "nada se cria, tudo se copia", mas, como essa expressão é MUITO do tio Joel, senti necessidade de dar o crédito. De qualquer forma, fica como dica de leitura
)