Cadê o debate na universidade pública? (Ou vamos libertar o “debate” das garrras das aspas assassinas)
Acabo de voltar de um “debate” ocorrido no auditório da Faculdade de Economia da UFRGS. O “debate” fazia parte da programação da semana acadêmica do curso. Ao final, o mediador convidou os bravos sobreviventes a assistirem aos outros debates que ocorrerão durante a semana (os quais só o tempo dirá se merecerão aspas ou não).
Na verdade, só naquele momento se chamou o que havia acontecido ali de debate. Até então fora somente palestra. Era justo, afinal, nada mais que duas palestras que estavam acontecendo nessa noite. Primeiro, o diretor do Banrisul, depois uma economista e bancária. Assunto? A capitalização do banco. É desnecessário dizer quem defendia o quê.
O assunto prometia. Os convidados prometiam. Mas não houve debate. Chega de fazer suspense: o diretor deu uma palestra de cerca de uma hora e meia (depois da qual a platéia, que já era minguada, reduziu-se à metade, ou até mais) e, em seguida, a bancária falou. Em nenhum momento os dois estiveram juntos na mesa: quando o diretor falou, a bancária estava na platéia; quando a bancária falou, o diretor retirou-se do recinto (devia ter mais o que fazer, suponho).
Nem vou entrar no mérito do assunto tratado, posso falar quase nada sobre a capitalização do Banrisul sem dizer bobagem: não entendi lhufas do que o diretor disse - um pouco devido à minha sonolência ( pudera: era a segunda palestra que assistia no dia); um tanto devido à minha ignorância no assunto; e outro tanto por ele ter falado o idioma economiquês (o que não condeno, já que era a semana acadêmica da Economia, eu era, portanto, a intrusa ali, tinha mais é que me ferrar). A bancária falou de maneira perfeitamente inteligível, mas não é meu objetivo falar sobre a capitalização do Banrisul aqui, embora reconheça que seja um assunto de suma importância. O tema dessa crônica é a falta de debate (dessa vez sem aspas) na Universidade (Federal do Rio Grande do Sul).
O “debate” de hoje tem aspas só pelo fato de os dois não terem dividido a mesma mesa, de não ter havido qualquer tipo de comunicação entre os “debatedores”. Nem sempre é assim, porém. A maioria dos “debates” que presenciei (e já assisti a muitos “debates” na UFRGS) já nasciam com aspas. Nos cartazes anunciando essas cerimônias estavam estampados os nomes dos convidados, só quem não queria não via que não haveria debate porra nenhuma! A não ser que alguém aqui acredite em Papai Noel, Chapeuzinho Vermelho e debate entre dois correligionários.
Sei, muitos desses debates são promovidos pelo DCE. E eles têm uma justificativa para o fato de somente esquerdistas serem convidados: a mídia corporativa já dá espaço o bastante para que os defensores do status quo se manifestem.Eu vejo isso de maneira diferente: o pastor precisa ter o monopólio da palavra para que consiga realizar sua pregação. Em outras palavras, é muito fácil convencer sem ter alguém para fazer o contraponto.
Certo professor da Fabico, o mestre (doutor, aliás) Canali diz – ou costumava dizer quando freqüentei suas aulas - que a universidade pública é o único lugar aberto ao debate. Estava no segundo semestre quando o ouvi falar isso pela primeira vez. Agora estou no quinto e ainda não vi debate na universidade. Nem na sala de aula, nem fora dela. Tenho esperança de vir a assistir a algum. Espero que o debate sem aspas não chegue tarde demais.
