Uma imagem vale mil palavras

Anticotas protestam na UFRGS.
Foto: zerohora.com
Para mim, o texto abaixo (publicado no Correio do Povo "esses tempos", ô precisão) encerraria de uma vez por todas a discussão sobre cotas. Ao que tudo indica, só para mim (ok, com sorte para alguns de vocês também).
O PARADOXO DAS COTAS
Juremir Machado da Silva
Jamais alguém duvidou da originalidade brasileira. Não me canso de repetir isso. É o meu lado original. Os gaúchos são brasileiros (embora com algumas ressalvas e um pouco menos de flexibilidade na cintura). Logo, os gaúchos são originais. Porto Alegre, por exemplo, tem o mais belo pôr-do-sol do mundo. Falta apenas convencer o mundo dessa originalidade. Ou ser mais preciso: Porto Alegre tem o mais belo pôr-do-sol do mundo sobre o Guaíba. Prefiro esta última formulação. É muito mais original. Agora, num assunto muito sério, as cotas nas universidades, também estamos querendo ser originais. Ou malandros. Como qualquer um sabe, o sistema de cotas reserva vagas em universidades públicas para indivíduos de grupos sociais historicamente prejudicados.
A questão das cotas para estudantes oriundos de escolas públicas poderia ser vista até como mais injusta. A escola pública é deficiente porque os governos não lhes dão as condições de serem muito boas. Então se deve garantir ao seu egresso a possibilidade de chegar à universidade mesmo sendo pior. É uma forma de absolver os governos da incompetência e do desinteresse pela educação básica. Em vez de se elevar o nível das escolas públicas, diminui-se o nível de exigência na entrada para o ensino superior. Claro que as cotas étnicas também expressam a incompetência dos governos em resolver problemas sociais históricos. Mas, ao mesmo tempo, elas permitem enfrentar o racismo dissimulado da cultura brasileira e começar a pagar uma dívida secular e vergonhosa. Não há outro jeito. Sem cotas, os negros continuarão excluídos.
Somos originais. Queremos sempre o caminho mais longo. Ele nos parece tão curto. É mais interessante do que pagar a conta da educação completa de todos os nossos jovens. Não há mérito algum em vencer um candidato que nunca teve condições de preparar-se para a competição.

aham.
Comment by gabi — January 29, 2008 @ 5:16 pm
Ah, pois é.
Mas vai dizer isso para quem não consegue entender o princípio mesmo das cotas em universidades federais. Já tive muitas discussões - algumas com pessoas muito inteligentes das quais eu gosto muito - sobre esse assunto, e acho que a coisa está longe de chegar sequer próxima de uma solução. Mas enfim, que as cotas continuem incomodando - é um bom sinal
Comment by Natusch — January 29, 2008 @ 7:34 pm
Acredito que o problema é que as pessoas pensam que as cotas não são legítimas pois não resolvem todos os problemas relativos ao ensino público (básico e universitário).
Ah, e claro, por trás do argumento furado se esconde uma classe que acha que as vagas na universidade lhe pertencem por usucapião.
Mas o mais divertido disso tudo é a solução sugerida pela classe referida: “melhorar o ensino básico”. Cinismo é o que há.
Comment by aiculana — January 30, 2008 @ 3:46 am
Quando vc apóia um assunto, qualquer texto sobre ele parece “definitivo”, “conclusivo”, e enfins.
Comment by Dantezco-mano — March 1, 2008 @ 1:10 am
E eu gosto de ver duas coisas: os preconceitos de quem fala do preconceito, e que o autor falar de meritocracia mas sobre reforçar o ensino DE BASE (sabe, aquele que vc REALMENTE precisa ter pra alguns cursos) não menciona nada.
O problema de cotas é que elas tão mal-colocadas. São uma solução cosmética — vamos colocar mais negros na federal o/ urru!
Já compararam desempenho dos alunos depois dessa idéia? E como foi feita a pesquisa (porque quem estudou estatística sabe que pesquisa é a coisa mais fácil de manipular que existe)?
Comment by Dantezco-mano — March 1, 2008 @ 1:17 am
Dante,
concordo com a primeira crítica e informo que “estamos trabalhando para melhor atendê-lo”.
Vamos às críticas ao texto do Juremir:
Quanto ao ensino de base, todo mundo concorda que este necessita de melhoras. E, pelo que sei, o governo vem tomando providências nesse quesito. Porém há que se dizer que as cotas não vêm para “resolver todos os problemas do ensino formal no Brasil”, ao contrário do que muitas pessoas pensam. Elas nada mais são que medidas afirmativas. Como eu disse, é muito mais uma medida simbólica.
Quanto à manipulação das pesquisas, jamais saberemos ao certo, mas acho que um bom indício de sua validade é que a mídia e a elite estão, assumidamente, contra as cotas, então, se vissem um mísero sinal de irregularidade elas não se furtariam a escancarar para deus e todo mundo, não acha? E outra, antes das cotas NINGUÉM cobrava o desempenho dos alunos das Universidades Federais. Por que o interesse repentino? Não deveria ser uma constante a avaliação e a cobrança de bom desempenho dos alunos - cotistas ou não -, uma vez que estão estudando graças aos impostos que muita gente que nunca vai conseguir entrar numa federal paga?
Enfim, as cotas não são a solução. São um passo na inclusão de minorias historicamente excluídas (ô jargão batido!). Eu acredito - como boa sonhadora que sou - que ao ver um médico, um dentista, um programador negro, um guri negro vai acreditar que ele também pode ser como eles. Agora, se continuarem existindo somente brancos nessas profissões, talvez ele pense que “aquilo não é para gente como ele”. Sei lá, por ora é esperar para ver. Há muito mais argumentos contra as cotas (que tu não citou), que eu não saberia rebater. Estou me estendendo demais, melhor criar um novo post.
Comment by aiculana — March 2, 2008 @ 1:54 am