Feira da Ana Lúcia

February 27, 2008

Na saída do colégio

Filed under: Playground - aiculana @ 2:32 am

Fragmentos de conversas ouvidos por mim quando fui buscar meu irmão no colégio, em Santa Cruz do Sul (minha cidade):

- Eu quero fazer jornalismo ou publicidade. Eu queria passar na UFRGS, ou ESPM.

- (…) bah, três períodos de Português! Imagina: passar três horas olhando pra cara da Marta! [Não é minha mãe, juro!]

— 

Amanhã meu irmão faz 17 anos. Isso significa que há quase cinco anos eu completava a mesma idade, pois ele é cinco anos mais novo que eu. Apesar disso, não faz muito eu era uma adolescente. Ainda duvido que seja adulta. O fato é que ao menos a preocupação com o que os outros irão pensar da minha roupa, do meu cabelo, das minhas opiniões, do meu sapato, do conjunto, hoje não representa nem um vigésimo do que era há uns três, vá lá, quatro anos. Até parece mentira que "desfilar" nos corredores do colégio era uma tortura: não importa se os olhares de cima a baixo eram fruto da minha imaginação aborrescente ou se de fato existiram, virtuais ou reais, não sei, só sei que eram inquisidores; qualquer falha mínima (ratiada, como se dizia na minha época) era motivo para a auto-condenação eterna. Não importa se todos já tivessem esquecido: cada vez que eu rememorava o ocorrido, minha idiotice aumentava em progressão geométrica. Eram coisas tão banais que eu nem recordo sequer uma para exemplificar.

Se a relação do aborrescente consigo mesmo já é tenebrosa, que dirá com seus amigos, colegas e família. Ao lembrar o colégio, a primeira coisa que vem à mente são as fofocas. Quem não conheceu nesse período a dor e a delícia de ter uma amiga "leva-e-traz"? A parte divertida nisso é que eu conseguia fingir que não ligava para o que os outros diziam sobre mim e, em última instância, era isso que contava. Ah, e havia também a satisfação da curiosidade: saber o que o outro grupinho comentava compensava o martírio. Não importa: eu conseguia fazer de conta que não concordava de maneira alguma com o que elas diziam - apesar de estar ultra-insegura. Azar: vivíamos num mundo de aparências. Muitas vezes a patricinha-chefe era oriunda da família mais desprovida de recursos financeiros. E, não preciso nem dizer, se achava a bolachinha mais recheada do pacote.

Acabou. O frio na barriga ao passar por entre adolescentes se transformou numa sensação boa. O único anseio é por furtar conversas (como as que citei acima). E sempre é como se tivesse alguma ligação com esses jovens da qual, porém, somente eu tenho conhecimento. E tal vínculo secreto é razão do meu sorriso latente como se disesse que "vocês não sabem, mas, na verdade, vocês são eu algum tempo atrás. Mesmo que o vestibular da UFRGS pareça uma incógnita que decidirá sua vida para todo o sempre e que a aula da Marta seja um porre, vocês hão de agüentar o tranco e recordarão essa época com tanto carinho quanto eu (apesar de ser um porre muito maior do que três períodos seguidos de Português)".

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