“Morreu na contramão atrapalhando o tráfego…”
Leiam apenas o início de uma matéria do Correio do Povo de hoje, p. 6 (façam um esforço, sim?).
"Chuva abundante seguida de frio
Superou, em 24 horas, a metade da média histórica de maio. Declínio da temperatura será acentuado.Em apenas 24 horas, choveu mais da metade da média histórica do corrente mês (94,6 mm) em Porto Alegre. Segundo a MetSul Metereologia, a chuva acumulada na cidade desde o começo da manhã de quarta-feira atinge 50 mm na maioria dos bairros. A expectativa é de bastante frio para os próximos dias.
Com a chuva, que não deu trégua durante todo o dia de ontem, o trânsito ficou lento em muitos pontos. No final da tarde, um assalto na avenida Assis Brasil, que deixou um morto, causou congestionamento na área. O trânsito também ficou prejudicado nas proximidades das obras na avenida Baltazar de Oliveira Garcia (…)" (grifo meu)
Pronto, a matéria continua, mas não é preciso ler o resto: o morto só estava ali porque "causou congestionamento", o assunto da matéria é a chuva, o trânsito, seiláeu (êta "troço" mal escrito!).
Sabe aquele clichê que diz que não podemos perder a capacidade de nos indignar?? Certamente não é a primeira vez que alguém, como diria o Chico, morre na contramão atrapalhando o tráfego, e um jornal dá a informação desse jeito. Nem por isso vou deixar de me indignar. Não dá pra deixar passar! Se as pessoas já acham natural ler que uma passeata do MST atrapalhou o trânsito, daqui a pouco não vão se espantar ao lerem que alguém - um ser humano, porra! - morreu atrapalhando quem estava com pressa de chegar ao local de trabalho, ou à casa (depois de um longo dia de labuta). Se bem que aí a culpa é do assaltante, e não do morto; já no caso do MST é daqueles "vagabundos" que, além de não quererem trabalhar, vêm à cidade fazer fuzarca, para atrapalhar a vida de quem quer, e não do governo e dos latifundiários.
Feliz, agora, é o "morto", que deixou um mundo no qual ele só existe quando atrapalha outrem. Um mundo no qual ele, provavelmente, só existiu por quatro linhas.
