Feira da Ana Lúcia

May 30, 2008

“Morreu na contramão atrapalhando o tráfego…”

Filed under: Indústria cultural - aiculana @ 9:34 pm
Atenção: este post tem trilha sonora. Leiam ouvindo. 

Leiam apenas o início de uma matéria do Correio do Povo de hoje, p. 6 (façam um esforço, sim?).

"Chuva abundante seguida de frio 
Superou, em 24 horas, a metade da média histórica de maio. Declínio da temperatura será acentuado.

Em apenas 24 horas, choveu mais da metade da média histórica do corrente mês (94,6 mm) em Porto Alegre. Segundo a MetSul Metereologia, a chuva acumulada na cidade desde o começo da manhã de quarta-feira atinge 50 mm na maioria dos bairros. A expectativa é de bastante frio para os próximos dias.

Com a chuva, que não deu trégua durante todo o dia de ontem, o trânsito ficou lento em muitos pontos. No final da tarde, um assalto na avenida Assis Brasil, que deixou um morto, causou congestionamento na área. O trânsito também ficou prejudicado nas proximidades das obras na avenida Baltazar de Oliveira Garcia (…)" (grifo meu)

Pronto, a matéria continua, mas não é preciso ler o resto: o morto só estava ali porque "causou congestionamento", o assunto da matéria é a chuva, o trânsito, seiláeu (êta "troço" mal escrito!). 

Sabe aquele clichê que diz que não podemos perder a capacidade de nos indignar?? Certamente não é a primeira vez que alguém, como diria o Chico, morre na contramão atrapalhando o tráfego, e um jornal dá a informação desse jeito. Nem por isso vou deixar de me indignar. Não dá pra deixar passar! Se as pessoas já acham natural ler que uma passeata do MST atrapalhou o trânsito, daqui a pouco não vão se espantar ao lerem que alguém - um ser humano, porra! - morreu atrapalhando quem estava com pressa de chegar ao local de trabalho, ou à casa (depois de um longo dia de labuta). Se bem que aí a culpa é do assaltante, e não do morto; já no caso do MST é daqueles "vagabundos" que, além de não quererem trabalhar, vêm à cidade fazer fuzarca, para atrapalhar a vida de quem quer, e não do governo e dos latifundiários.

Feliz, agora, é o "morto", que deixou um mundo no qual ele só existe quando atrapalha outrem. Um mundo no qual ele, provavelmente, só existiu por quatro linhas.

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