Feira da Ana Lúcia

December 11, 2008

Cuidado!

Filed under: Indústria cultural, Eu, Injustiças - aiculana @ 4:46 pm


 
Andava atormentada por uma séria dúvida: será a indiferença uma falha ética? Agora está tudo resolvido para mim, já tenho a minha resposta – eu disse a minha resposta, é bom frisar, para que não pensem que sou uma ditadora do pensar.

Ética é um daqueles vocábulos muito empregados e pouco pensados – os jornalistas que o digam! -; conceituaremos, pois. Utilizo aqui a definição que Leonardo Boff expõe no livro “Saber cuidar” (aliás, único livro sobre ética que a humilde escriba leu até hoje). A definição de Boff é muito simples e, por isso, bela. Ética, para ele, nada mais é que o cuidado no sentido mais amplo da palavra. Este cuidado se estende, então, do ser humano até qualquer coisa que possa ter a mais remota ligação com o ele. É o cuidado com a vida. Mas não somente o cuidado com o corpo, mas também com a alma. Não somente consigo, mas com o outro. Não somente com a casa, mas com a natureza. Em suma, cuidar da vida como um todo, trata-se do extremo oposto ao “foda-se” de nosso tempo.

Num primeiro olhar, a palavra cuidado pode remeter a uma situação excepcional ("tome cuidado!", "eeei, cuidado!") ou mesmo à área da saúde. A mim, por exemplo, traz à mente a imagem de um médico recusando-se a atender um paciente gravemente enfermo. A ética não tem “poréns”: a meu ver, o “porém” de que ele estava recebendo R$1,00 por consulta, o “porém” de que ele estava trabalhando em condições precárias não servem. Todavia, assim como um médico comete uma falha ética ao não atender a um paciente, um jornalista faz o mesmo ao não defender os interesses da classe da qual faz parte. O mito da imparcialidade faz com que se crie a ilusão de que todos são iguais, só que patrão e empregado não são iguais, mulher e homem não são iguais, brancos e negros não são iguais! O que quero dizer com isso é que o poder (econômico, político, simbólico) de que dispõem são assimétricos! Por que eles haveriam de ser tratados equanimemente por um jornalista que finge ser um Deus (acima do bem e do mal), quando, na realidade, é apenas mais um funcionário mal-remunerado? Só não vale argumentar que profissional e pessoa são “entidades” distintas!*

É certo que não ignoro que a imprensa está subordinada a interesses econômicos, como qualquer empresa privada, e que, no contexto atual, falar de qualquer espécie de ética soa como piada, uma vez que o simples fato de a indústria cultural incentivar o consumo de supérfluos ou de compostos feitos em laboratório disfarçados de alimentos (porcarias cheias de aromatizantes, corantes, acidulantes, gordura hidrogenada, açúcares, ou, em bom português: sem valor nutricional algum, ou seja, que não são alimentos)** já deixa a situação dessas empresas bastante problemática (estou falando em relação a valores éticos, não monetários). E nem vou entrar aqui nas tão faladas relações promíscuas com os anunciantes!           

Ética, gente, nada mais é do que saber ser humano, em tudo o que há de bom nisso. É bom lembrar que, se cometemos os atos mais horrendos, somos também capazes das coisas mais belas! Talvez se aprendermos - e ensinarmos a quem pudermos - a cuidar sempre, não só na curva, na descida íngreme, ou com o quebra-molas.

 

* Vale indicar a leitura do texto <"http://www.pontodevista.jor.br/blog/?p=261">Showrnalismo, o ensino da Covardia, de autoria de W.U.

** Não sei se já contei aqui uma historinha bem ilustrativa da minha infância. Tive a sorte de ter uma mãe que conseguiu me manter livre das “porcarias” até uma fase bem avançada da minha infância (depois ela desistiu, lutar contra a indústria cultural não é mole!). Antes de ela me largar de mão, um dia, após argumentar que bolachinhas recheadas, ou algo do gênero, faziam mal à saúde teve que ouvir a seguinte pérola: “Se faz mal, por que é que fabricam?”. Demorei a descobrir que a ética não está entre as prioridades das multinacionais (muito pelo contrário!).

E chega o final do ano…

Filed under: Playground - aiculana @ 2:12 am

E um (a) amigo (a) te fala que tem uma idéia genial. E tu ficas curioso(a) para saber que lampejo seria aquele que deixara seu/sua pacato(a) amigo(a) tão entusiasmado. Uma idéia para fazer a revolução? Para implodir o Congresso Nacional? Para mobilizar as pessoas a lutarem para que a exploração da camada pré-sal reverta em benefício do povo brasileiro? Para acabar com o oligopólio dos meios de comunicação?

Não, criança. Trata-se da única idéia possível num final de ano: amigo secreto. E lá vai TU, que sempre foi anti-consumista; TU, que neste ano viraste ecologista; TU, que odeias futilidades; TU, que há tempos paraste de dar presentes em aniversários (e isso vale especialmente para mãe, pai, irmão e parentes em geral); TU, que não estás exatamente bem de grana… TU mesmo tens de adivinhar o que fulaninho gostaria de ganhar (ou o que fulaninha não desgostaria de ganhar).

Desculpem, amigos, não me levem a mal, mas neste momento - quando tenho dois presentes para comprar - eu mataria a pessoa que inventou essa porra de amigo secreto.

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